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Repolho (Brassica oleracea var. capitata)

O repolho, cujo nome científico é Brassica oleracea L. var. capitata L., é uma das hortaliças folhosas de maior importância econômica no agronegócio brasileiro. Em 1992, a área plantada no Brasil era de 13.387,7 ha, com produção de 408.276 toneladas. O consumo per capita no Brasil é estimado em 2 kg/ano, enquanto na região Norte este índice decresce para 1,3 kg. Do ponto de vista nutricional, o repolho é fonte de vitaminas C, B1 e B2, além de sais minerais como cálcio e fósforo de fácil assimilação pelo organismo.

Descrição

O repolho é uma planta da família Brassicaceae, de ciclo anual, com folhas dispostas em roseta compacta formando a "cabeça" ou "repolho" propriamente dito. É cultivado tanto em campo aberto como em ambiente protegido, adaptando-se melhor a climas amenos (ótimo de 16°C a 18°C), embora existam híbridos desenvolvidos para cultivo em regiões tropicais quentes.

Principais Características:

  • Nome científico: Brassica oleracea L. var. capitata L.
  • Família botânica: Brassicaceae.
  • Hábito de crescimento: herbácea anual, ereta, com formação de cabeça compacta.
  • Fruto/Produto: cabeça formada por folhas sobrepostas, coloração verde ou roxa, peso variável conforme cultivar.
  • Flor: amarela, em inflorescência tipo racemo, hermafrodita.
  • Propagação: por sementes; produção de mudas em sementeiras ou bandejas antes do transplantio.
Cultivo de Repolho

Variedades e Cultivares

Cultivar / Híbrido Característica Principal Destaque Técnico Ciclo / Época de Plantio
Sooshu (KK cross) Híbrido japonês precoce; cabeça redondo-achatada, peso médio 1,5 kg; folhas verde-azuladas Tolerante a temperaturas até 38°C; indicado para cultivo em regiões tropicais; boa adaptação ao cerrado 80 dias; verão e ano todo em clima tropical
Kenzan Híbrido japonês precoce; cabeça achatada, peso médio 2,0 kg; folhas verde-azuladas Tolerante à podridão mole (Erwinia carotovora), podridão negra (Xanthomonas campestris) e rachadura da cabeça; recomendado para regiões serranas 80 dias; inverno e regiões de altitude
Fuyutoyo Híbrido japonês precoce; cabeça achatada, compacta e branca internamente, peso médio 2,0 kg Tolerante à rachadura da cabeça; folhas verde-azuladas escuras; boa conservação pós-colheita 90 dias; inverno e transição
Louco de Piracicaba Cultivar brasileira de verão; grande porte; cabeças achatadas até 2,5 kg; folhas verde-escuras Resistente à hérnia das brássicas (Plasmodiophora brassicae) e à podridão negra; amplamente adaptado ao Brasil 100 dias; verão e épocas quentes
Repolho Verde
Repolho Verde (campo)
Cabeça de Repolho
Cabeça de Repolho (colheita)

Manejo e Plantio

  • Sistemas de cultivo: O repolho pode ser cultivado a céu aberto ou em cultivo protegido. Em Roraima, o cultivo é realizado principalmente na região de microclima da Serra de Pacaraima e em área de mata na Vila Iracema, com comprovação de viabilidade também em área de cerrado (temperatura média anual de 27,4°C). Em Minas Gerais, a região de Juiz de Fora é a maior fornecedora para o mercado de Belo Horizonte, com destaque para o município de Carandaí.
  • Produção de mudas e transplantio: A semeadura é feita em sementeiras preparadas com 1 m de largura e leito de 15 a 20 cm de espessura, utilizando substrato com metade de solo e metade de esterco curtido. O transplantio deve ocorrer quando as mudas apresentarem 4 a 6 folhas definitivas ou 10 a 15 cm de altura, entre 21 e 28 dias após a semeadura, em covas de 30 × 30 × 30 cm com espaçamento de 60 cm na fileira e 80 cm entre fileiras.
  • Preparo do solo e correção: O solo mais apropriado é de textura média, solto, profundo e rico em matéria orgânica, com pH entre 5,5 e 6,8. Em solos ácidos de Roraima, recomenda-se elevar o pH até 6,0 com calcário dolomítico ou cal hidratada, incorporado pelo menos dois meses antes do transplantio. Para solos com elevado teor de alumínio, como na região de Pacaraima, utiliza-se dosagem de 5 t/ha de calcário com PRNT de 100%.
  • Irrigação: O repolho é exigente em água, necessitando de aplicação diária de 3 a 4 mm (3 a 4 litros/m²) nos primeiros 20 dias após o transplantio; após esse período, as irrigações podem ser feitas em turnos de 2 a 3 dias. O sistema de aspersão é o mais utilizado, mas sulcos, gotejamento e microaspersão também são alternativas viáveis.
  • Adubação orgânica e química: Recomenda-se 50 t/ha de esterco bovino curtido aplicado diretamente na cova de plantio. A adubação química deve ser baseada em análise de solo; na ausência desta, utiliza-se a fórmula 4-14-8 na base de 50 g/cova em solos já cultivados e 80 a 100 g/cova em solos novos, mais 0,5 g de bórax/cova. Adubação de cobertura com 20 a 30 g de sulfato de amônio ou nitrocálcio por cova, aplicada 20 a 30 dias após o transplantio.
  • Adubação foliar e micronutrientes: Aos 7 e 11 dias após a germinação, recomenda-se pulverização foliar com molibdato de sódio (5 g/10 L de água) e, aos 10 e 20 dias, aplicação de bórax (20 g/10 L de água) para garantir boa formação e fechamento da cabeça. Pulverizações quinzenais com mistura de 20 L de água + 10 g de molibdato de sódio + 40 g de bórax + 10 g de ureia são indicadas para garantir formação adequada das cabeças.
  • Colheita: A colheita inicia-se quando as cabeças estiverem bem fechadas e compactas, entre 80 a 130 dias após o transplantio, conforme a variedade e época de plantio. O corte é feito rente à última folha, deixando-se 4 a 5 folhas para proteção do repolho. Para fins comerciais, classificam-se as cabeças em Extra (1,5 a 2,0 kg), Especial (>2,5 kg) e Primeira (miúdas com defeitos não comprometentes).
  • Rotação de culturas: Fundamental para reduzir inóculo de patógenos de solo. Recomenda-se rotação com solanáceas (tomate, pimentão), leguminosas (mucuna-preta, guandú), liliáceas (cebola, alho) e cenoura, com intervalo mínimo de 2 a 3 anos para doenças como podridão negra e hérnia.
Adaptação ao Clima Tropical

Embora o repolho seja originário de regiões de clima temperado, o advento de híbridos japoneses (como Sooshu, Kenzan e Fuyutoyo) permitiu seu cultivo em regiões tropicais, mesmo em épocas de clima quente. Em Roraima, ensaios da Embrapa comprovaram a viabilidade do cultivo em área de cerrado com temperatura média anual de 27,4°C e umidade relativa de 76%. Na região serrana de Pacaraima (altitude 900 m, temperatura média 21,4°C), o híbrido Kenzan alcançou produtividade de até 87 t/ha em ensaios de pesquisa.

Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIP)

O repolho, como demais brássicas, está sujeito ao ataque de diversas pragas e doenças que podem comprometer significativamente a produção. O manejo integrado combina práticas culturais, monitoramento, controle biológico e, quando necessário, controle químico registrado no MAPA.

Pragas Chave
Praga Sintomas / Danos Manejo Recomendado
Traça-das-crucíferas (Plutella xylostella) Lagartas verde-claras (7-10 mm) alimentam-se das folhas, deixando-as rendadas ou furadas; quando atacam folhas da cabeça, causam grande prejuízo comercial Monitoramento frequente; controle biológico com Bacillus thuringiensis; inseticidas registrados (Cartap, Abamectina, Metomil); evitar aplicações preventivas desnecessárias
Curuquerê-da-couve (Ascia monuste orseis) Lagartas de 30-35 mm, cabeça escura, alimentam-se das folhas causando desfolha intensa; podem comprometer totalmente a planta em infestações severas Monitoramento visual; controle biológico com parasitoides; inseticidas registrados (Malation, Triclorfon, Diazinon) aplicados no início do ataque
Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) Lagartas de até 4 cm cortam plantas recém-transplantadas rente ao solo durante a noite; habita o solo durante o dia; causa perdas de estande e necessidade de replantio Aplicação de inseticidas no colo da planta; iscas tóxicas (farelo + açúcar + Triclorfon); monitoramento noturno; controle cultural com eliminação de restos vegetais
Pulgão-da-couve (Brevicoryne brassicae) Insetos de 1-2 mm, verdes com camada cerosa branca, sugam seiva causando enrolamento foliar, definhamento e transmissão de viroses; localizam-se na face inferior das folhas Monitoramento regular; controle biológico com parasitoides; inseticidas registrados (Dimetoato, Acefato, Pirimicarb); cobertura morta com casca de arroz ou cal tem efeito repelente
Broca-da-couve (Hellula undalis) Lagartas amareladas com três listas marrons no dorso; alimentam-se da superfície foliar e cavam galerias em nervuras e pontos de crescimento, causando brotações excessivas Monitoramento visual; inseticidas registrados (Acefato, Metomil, Paration-metílico) aplicados logo ao observar primeiros sintomas
Principais Doenças
Doença (Agente) Sintomas Manejo Recomendado
Podridão-negra (Xanthomonas campestris pv. campestris) Lesões amareladas em forma de V nas folhas, com vértice voltado para o centro; vasos lenhosos enegrecidos; amarelecimento e necrose foliar Uso de sementes sadias; tratamento com antibióticos (aureomicina/terramicina); rotação de 2-3 anos; cultivares resistentes (Louco, Sabaúna); evitar irrigação por aspersão
Podridão-mole (Erwinia carotovora pv. carotovora) Encharcamento e decomposição aquosa/gelatinosa dos tecidos, com odor desagradável; frequentemente associada à podridão-negra Plantio na época seca; controle de insetos mastigadores; evitar ferimentos nas plantas; solos bem drenados; fungicidas cúpricos registrados
Hérnia-das-crucíferas (Plasmodiophora brassicae) Galhas nas raízes (hiperplasia celular); murcha nas horas quentes; enfezamento; raízes deformadas podem apodrecer liberando esporos Rotação mínima de 4 anos; pH do solo >7,0; adubação com cálcio; evitar solos argilosos/encharcados; cultivares resistentes (YR Atlas F1, Natsumi AF-75 F1)
Míldio (Peronospora parasitica) Lesões cloróticas irregulares evoluindo para necrose; frutificação branca na face inferior das folhas; ataque severo em mudas de sementeira Sementeira em locais sem acúmulo de neblina; baixa densidade de semeadura; fungicidas (Maneb, Mancozeb, cúpricos) com espalhante adesivo
Mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) Manchas encharcadas em folhas próximas ao solo ou na cabeça; mofo branco com escleródios negros; podridão mole da haste Rotação com gramíneas; destruição de restos culturais; aração profunda para enterrar escleródios; fungicidas sistêmicos (Benomil, Carbendazin)
Mancha-de-Alternária (Alternaria brassicae) Lesões necróticas circulares com anéis concêntricos e halo amarelo; coalescência causando queima foliar; ataque em ramos na produção de sementes Sementes tratadas com fungicidas (Thiram); eliminação de restos culturais; fungicidas (Mancozeb, cúpricos); evitar áreas de baixada com acúmulo de umidade
Controle Preventivo e Boas Práticas

Para o manejo eficaz de pragas e doenças do repolho, recomenda-se: uso de sementes e mudas certificadas e tratadas; rotação de culturas com espécies não hospedeiras; eliminação de restos culturais e plantas invasoras; correção e adubação equilibrada do solo; irrigação adequada sem excesso de umidade foliar; monitoramento constante da lavoura; e aplicação de defensivos apenas quando necessário, seguindo recomendações técnicas e respeitando períodos de carência.

Alerta de Temperatura: O repolho adapta-se melhor a climas amenos, com faixa ideal entre 16 °C e 18 °C. Temperaturas acima de 35 °C podem prejudicar a formação da cabeça e induzir rachaduras, enquanto temperaturas abaixo de 10 °C retardam o crescimento. Híbridos japoneses como Sooshu e Kenzan foram desenvolvidos para tolerar temperaturas elevadas (até 38°C), viabilizando o cultivo em regiões tropicais como Roraima e Amapá. Em regiões serranas (altitude >800 m), como Pacaraima-RR, o cultivo apresenta produtividade superior e menor incidência de doenças, com híbridos como Kenzan alcançando até 87 t/ha em ensaios de pesquisa.