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Tomate (Solanum lycopersicum)

O tomateiro (Solanum lycopersicum) é uma solanácea amplamente difundida pelo mundo e ocupa a terceira maior área plantada dentre as hortaliças cultivadas no Brasil. É uma cultura de grande importância socioeconômica, com produção superior a 3,5 milhões de toneladas em aproximadamente 56 mil hectares, e produtividade média de cerca de 62 t/ha (MADEIRA et al., 2019).

Descrição

O tomateiro é uma planta da família Solanaceae, originalmente de clima ameno e relativamente seco, mas adaptada a ampla gama de condições climáticas. No Brasil, destaca-se em regiões serranas, de planalto ou de clima subtropical/temperado. A cultura apresenta dois segmentos principais: tomate para processamento industrial (rasteiro, com hábito determinado) e tomate para mesa (tutorado, com hábito indeterminado ou semideterminado), incluindo grupos como Santa Cruz, Salada, Cereja e Italiano.

Principais Características:

  • Nome científico: Solanum lycopersicum L.
  • Família botânica: Solanaceae.
  • Hábito de crescimento: herbácea perene cultivada como anual; porte indeterminado, semideterminado ou determinado, conforme cultivar.
  • Frutos: bagas carnudas, coloração variada (vermelha, rosa, amarela, verde), formatos diversos (redondo, alongado, cereja, italiano).
  • Flor: amarela, pequena, hermafrodita, geralmente em inflorescências racemosas.
  • Propagação: por sementes; produção de mudas em bandejas com substrato, transplantio aos 25-35 dias após semeadura.
Cultivo de Tomate

Variedades e Cultivares

Tipo / Grupo Característica Principal Destaque Técnico Coloração na Maturação
Rasteiro (industrial) Hábito de crescimento determinado; colheita mecânica; frutos com alto teor de sólidos Cultivado sem tutoramento; predominante em grandes áreas mecanizáveis do Brasil Central; plantio entre março e julho para escapar do período chuvoso. Verde → Vermelho intenso
Santa Cruz (mesa) Frutos oblongos, costados, firmeza média; hábito indeterminado Tipo mais tradicional no mercado brasileiro de mesa; exige tutoramento e condução; boa adaptação a diferentes regiões produtoras. Verde → Vermelho
Salada / Longa Vida Frutos redondos, firmes, alta durabilidade pós-colheita Ampla aceitação comercial; cultivado com tutoramento vertical; demanda adubação equilibrada para manter firmeza e sabor. Verde → Vermelho ou Rosa
Cereja / Italiano Frutos pequenos (cereja) ou alongados (italiano); sabor intenso Segmento de alto valor agregado; produção em cultivo protegido ou aberto; exige manejo fitossanitário rigoroso e colheita no ponto ideal de maturação. Verde → Vermelho, Amarelo ou Laranja
Tomate Rasteiro
Tomate Rasteiro
Tomate para Mesa em Tutoramento
Tomate para Mesa

Manejo e Plantio

  • Sistemas de cultivo: O tomateiro pode ser cultivado a céu aberto (campo) ou em cultivo protegido (estufas). O segmento industrial (rasteiro) é predominantemente mecanizado e cultivado em áreas de topografia suave no Brasil Central. O tomate para mesa, por sua vez, é frequentemente tutorado e produzido em regiões serranas ou de clima ameno, com colheita escalonada ao longo do ano. O Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH) tem sido recomendado como alternativa conservacionista, com redução de até 90% nas perdas de solo por erosão (MADEIRA et al., 2019).
  • Produção de mudas e transplantio: A produção de mudas é realizada em bandejas de polipropileno com substrato, em ambiente protegido. O transplantio para o local definitivo ocorre quando as mudas apresentam 4 a 6 folhas definitivas (25-35 dias após semeadura). No SPDH, o transplantio é feito em sulcos ou covas abertas sobre a palhada, com revolvimento localizado do solo.
  • Tutoramento e condução: Para tomate de mesa, o tutoramento vertical com fitilhos ou estacas é amplamente utilizado, alternativamente ao sistema tradicional em "V" invertido. A poda de formação, desbaste de brotos laterais e condução de hastes são práticas essenciais para aumentar produtividade e sanidade. No tomate rasteiro, não há tutoramento, e a condução visa manter a planta rasteira para colheita mecânica.
  • Irrigação: O tomateiro exige manejo hídrico preciso. No SPDH, a presença de palhada reduz a evaporação, proporcionando economia de água de irrigação da ordem de 25% na fase inicial e 11% ao longo do ciclo para tomate rasteiro; para tomate tutorado, estimativas empíricas indicam redução de 30% a 50% (MADEIRA et al., 2019). O gotejamento é o sistema mais indicado, permitindo fertirrigação e reduzindo o molhamento da parte aérea.
  • Solo e correção: O tomateiro prefere solos férteis, bem drenados, com pH entre 5,8 e 6,8. A calagem deve ser realizada com antecedência (preferencialmente 90 dias antes do plantio), incorporando calcário dolomítico para atingir saturação de bases de 70% e relação Ca:Mg de 1:1 na CTC. Em SPDH, a amostragem do solo deve ser feita nas camadas 0-10 cm e 10-20 cm, devido ao acúmulo de nutrientes na subsuperfície.
  • Adubação e nutrição: O tomateiro é exigente em nutrientes: demanda estimada de 190-300 kg/ha de N, 30-70 kg/ha de P e 200-350 kg/ha de K, além de Ca, Mg e S (MADEIRA et al., 2019). A ordem de acúmulo é K > N > P ≥ Ca > S > Mg. No SPDH, recomenda-se aplicar 40% do N e 60% do K no plantio, parcelando o restante em cobertura. O uso de gesso agrícola é indicado para fornecer Ca e S em camadas mais profundas.
  • Colheita: Para tomate de mesa, a colheita é manual, realizada quando os frutos atingem o ponto de maturação comercial (verde-maduro a vezado, conforme destino). Para tomate industrial, a colheita é mecânica, quando os frutos apresentam coloração vermelha uniforme e teor de sólidos adequado. No SPDH, a palhada reduz o contato direto dos frutos com o solo, diminuindo perdas por podridões em até 55%.
  • Rotação de culturas e plantas de cobertura: Fundamental para sustentabilidade do SPDH. Recomenda-se rotação com gramíneas (milho, milheto, aveia, sorgo) e leguminosas (crotalária, mucuna, feijão-de-porco, ervilhaca), isoladas ou em consórcio. As plantas de cobertura devem formar palhada densa e duradoura, com sistema radicular vigoroso para descompactação e reciclagem de nutrientes (MADEIRA et al., 2019).
Benefícios do SPDH para o Tomateiro

O Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH) proporciona: redução de até 80% nas perdas de água por escoamento superficial e 90% na erosão do solo; incremento significativo de matéria orgânica e fertilidade após seis anos de adoção; redução de até 4°C na temperatura média do solo e até 11°C nos picos diurnos; economia de água de irrigação (11-25%); e maior eficiência no uso da água (~23% superior ao sistema convencional). Além disso, a palhada melhora o microclima, reduz estresse térmico e favorece a sanidade das plantas (MADEIRA et al., 2019).

Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIP)

O tomateiro é reconhecidamente uma das hortaliças mais exigentes em insumos agrícolas. No SPDH, a priorização da sanidade do sistema como um todo, com não revolvimento do solo, rotação de culturas efetiva e cobertura permanente, altera a dinâmica de problemas fitossanitários, favorecendo inimigos naturais e reduzindo a incidência de doenças (MADEIRA et al., 2019).

Pragas Chave
Praga Sintomas / Danos Manejo Recomendado
Traça-do-tomateiro (Tuta absoluta) Lagartas fazem galerias em folhas, hastes, pedúnculos e frutos; orifícios de saída permitem entrada de patógenos e apodrecimento. Praga de maior importância econômica no tomate. Monitoramento com armadilhas de feromônio; controle biológico com parasitoides (Trichogramma, Dolichogenidea); inseticidas registrados no MAPA; destruição de restos culturais; rotação de culturas.
Broca-pequena (Neoleucinodes elegantalis) e Broca-grande (Helicoverpa spp.) Lagartas broqueiam frutos internamente; orifícios de saída facilitam entrada de umidade e patógenos; frutos impróprios para comercialização. Ocorrem em temperaturas >25°C e UR >50%. Monitoramento; inseticidas registrados; destruição de frutos broqueados; evitar plantios em épocas favoráveis à praga; controle biológico com Bacillus thuringiensis e parasitoides.
Pulgões (Myzus persicae, Macrosiphum euphorbiae) Sucção de seiva; deformação foliar; transmissão de viroses (PVY, PepYMV, ToCV). Principal dano é a transmissão de vírus. Relevante em campo aberto e protegido. Telas antiafídeos em cultivo protegido; monitoramento frequente; controle biológico com parasitoides (Aphidius); inseticidas registrados; eliminação de plantas com viroses.
Moscas-brancas (Bemisia tabaci, Trialeurodes vaporariorum) Sucção de seiva; formação de fumagina; transmissão de Crinivirose (ToCV) e Geminivirose (Begomovirus). Alta relevância na fase de mudas e primeiros 40 dias após transplantio. Telas antiafídeos; monitoramento rigoroso no viveiro; armadilhas amarelas adesivas; controle biológico com Encarsia e Eretmocerus; inseticidas e óleos minerais registrados.
Ácaros (Tetranychus urticae, Polyphagotarsonemus latus) T. urticae: pontos cloróticos, teia, desfolha. P. latus: bronzeamento, folhas encarquilhadas. Mais severos em clima quente e seco/úmido, respectivamente. Monitoramento com lupa; acaricidas registrados; controle biológico com ácaros predadores (Phytoseiulus); manutenção de umidade adequada; evitar plantas estressadas.
Pragas Secundárias / Ocasionais no SPDH
Praga Sintomas / Danos Manejo Recomendado
Corós e Cupins Em áreas com SPDH consolidado, oscilação de palhada pode elevar populações; corós atacam raízes e colo; cupins cavam galerias. Podem atingir nível de dano econômico. Rotação com espécies não preferenciais; monitoramento; inseticidas registrados apenas quando necessário. Em hortaliças, a menor durabilidade do SPDH reduz ocorrência em relação a grãos.
Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon) Secciona colo de plantas jovens rente ao solo; em infestações severas pode exigir replantio. Monitoramento noturno; iscas tóxicas; inseticidas aplicados no sulco de plantio quando necessário.
Tripes (Frankliniella schultzei, F. occidentalis) Manchas prateadas nas folhas; danos em flores; transmissão de "Vira-cabeça" (TSWV, GRSV). Alta relevância no viveiro e primeiros 45 dias após transplantio. Armadilhas azuis adesivas; telas antiafídeos; controle biológico com Orius; inseticidas registrados; eliminação de plantas infectadas.
Mosca-minadora (Liriomyza spp.) Larvas abrem galerias serpenteantes em folíolos; alta infestação causa necrose e desfolha precoce. Monitoramento; controle biológico com parasitoides (Opius spp.); inseticidas sistêmicos registrados; evitar aplicações que eliminem inimigos naturais.
Principais Doenças e Benefícios do SPDH
Doença / Agente Sintomas Manejo e Efeito do SPDH
Nematoides (Meloidogyne, Pratylenchus) Galhas radiculares (Meloidogyne); lesões e necrose (Pratylenchus); redução de crescimento e produtividade. No SPDH com consórcio milho+mucuna, observou-se menor número de juvenis e adultos. Rotação com espécies não hospedeiras e aporte de matéria orgânica favorecem controle.
Doenças fúngicas foliares (Alternariose, Septoriose) Manchas foliares, desfolha precoce, redução de área fotossintética. No SPDH, redução do respingo da chuva diminui dispersão de esporos; plantas mantêm "saia" mais íntegra. Observações indicam menor incidência, mas carecem de validação experimental (MADEIRA et al., 2019).
Murchas bacterianas e fúngicas Murcha progressiva, escurecimento vascular, morte de plantas. SPDH favorece diversidade microbiana do solo e saúde das plantas. Rotação de culturas e evitar solanáceas na mesma área por pelo menos dois anos são essenciais.
Exemplos de Desempenho Produtivo em SPDH

Em ensaios da Embrapa Hortaliças, tomate rasteiro em SPDH atingiu produtividade de 105-118 t/ha (vs. 103 t/ha no convencional), com redução de ~55% em frutos podres. Em tomate para mesa no DF, sobre palhada de milheto, obteve-se até 92 t/ha com tutoramento vertical. Nos EUA, tomate em "mulching" de ervilhaca peluda produziu 96,4 t/ha contra 75,5 t/ha no convencional, com maior lucratividade. A eficiência de uso da água foi ~23% superior no SPDH (MADEIRA et al., 2019).

Alerta de Temperatura: O tomateiro é exigente em temperatura, com faixa ótima entre 21-28 °C durante o dia e 15-20 °C à noite (variação diurna de 6-8 °C é desejável). Temperaturas acima de 35 °C prejudicam a viabilidade do pólen e causam abortamento de flores/frutos, enquanto temperaturas abaixo de 10 °C reduzem o crescimento. O SPDH ameniza extremos térmicos: a palhada reduz a temperatura do solo em até 4 °C (média) e até 11 °C nos picos diurnos, proporcionando maior conforto térmico e menor estresse às plantas (MADEIRA et al., 2019).